Conferência

 JOSÉ MEDEIROS FERREIRA
– o cidadão, o político, o historiador

A Conferência de homenagem a José Medeiros Ferreira, que se realizou na Fundação Gulbenkian a 19 e 20 de Fevereiro de 2015, reuniu testemunhos de grande qualidade de amigos e admiradores. Preito de homenagem ao cidadão, ao político e ao historiador, a Conferência foi um momento de memórias partilhadas que fizeram reviver, segundo os termos de uma das participantes, “a (sua) personalidade caleidoscópica, riquíssima, com rara intuição para ver o desenho do futuro”.

José Medeiros Ferreira distinguiu-se como dirigente estudantil nas lutas académicas de 1962-65, como opositor ao regime salazarista, como governante designadamente na fase fundadora da democracia após a Revolução de 25 de Abril, como interventor no espaço público e como universitário e historiador. Nestes múltiplos campos de empenhamento e acção, deixou marcas indeléveis. A diversidade dos temas abordados pela Conferência exprime essa enorme riqueza de interesses e a magnitude do legado que nos deixou. Ministro dos Negócios Estrangeiros em 1976-1977, imprimiu um novo rumo à política externa portuguesa, preparando a adesão de Portugal à CEE, contra a continuidade de uma linha africanista. Deputado à Assembleia Constituinte, à Assembleia da República e ao Parlamento Europeu, teve um papel influente nas revisões constitucionais de 1997 e 2004, e foi determinante a sua acção no desenho e aprovação da lei de finanças das regiões autónomas de 1998. Num regresso às suas origens açorianas, foi nos anos 90 deputado pelo PS pelo círculo dos Açores, função que exerceu com uma renovada energia.

Terá o país sabido aproveitar as suas qualidades superiores de estadista – perguntou-se no decurso da Conferência. José Medeiros Ferreira, para além de possuir uma inteligência brilhante, era senhor de uma notável capacidade de intuição e de antecipação. Aliava características que em geral não se encontram reunidas na mesma pessoa. Era por isso difícil de catalogar. Tanto mais que prezava acima de tudo a sua liberdade e autonomia de pensamento. Aspectos que o sistema político-partidário não saberá apreciar na sua devida dimensão – tal como foi sublinhado por diversos oradores.

Mas a personalidade de José Medeiros Ferreira não se esgota neste ou naquele aspecto da sua acção. Desdobrou-se antes numa multiplicidade de domínios, e em todos se distinguiu: interessou-se pelas novas plataformas tecnológicas como um factor de cidadania, e foi um influente e apaixonado blogger (“Bicho Carpinteiro” e, ultimamente, “Córtex Frontal”), considerando que “o blogue aumenta a autonomia”; foi um perspicaz, passional/racional e sempre elegante interventor nos media sobre uma das suas paixões de juventude, o futebol; foi um analista político respeitado, inventivo e heterodoxo em jornais e na televisão. Exerceu no espaço público uma cidadania de valores, com pugnacidade, lucidez, irreverência, ironia, e um elevado sentido da medida.

Tendo entrado em 1981 para a recém-criada Faculdade de Ciência Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, pôde aí retomar uma outra paixão, iniciada durante o exílio em Genebra: a investigação, a publicação e o ensino no domínio da História contemporânea. A sua actividade docente marcará uma nova geração de historiadores. As suas capacidades de clareza, de abertura de novas pistas reflexivas por vezes imprevistas mas sempre desafiadoras, a sua cultura histórica mas também político-filosófica, o seu gosto pela procura livre e desmistificadora, combinadas com um estrito rigor e respeito pelas fontes arquivísticas, transformavam o seu magistério num prazer partilhado, a que um fino humor – que sempre caracterizou a sua maneira de estar – acrescentava uma nota de deleite pela descoberta do mundo e do pensamento.

Uma sessão da Conferência foi consagrada à apresentação do livro “José Medeiros Ferreira – a liberdade interventiva”, a cargo de Jorge Sampaio e com a participação de Vasco Cordeiro, Presidente do Governo Regional dos Açores. Obra de homenagem, lançada por um conjunto de amigos e familiares, é também um livro de memórias. Nele participaram muitos dos amigos – e José Medeiros Ferreira cultivava a amizade – que com ele conviveram na juventude açoriana, nas lutas académicas, no exílio genebrino, na acção política e governativa, nos media e na blogosfera, no espaço público, na Universidade e na investigação histórica. No livro transparece a admiração pelo Homem de qualidade, a fraternidade para com o amigo afável, atento e disponível, mas também o sentimento de uma presença inesquecível, capaz, nos tempos incertos que atravessamos, de iluminar o nosso presente e de ajudar a esclarecer o futuro. Ou como escreve Jorge Silva Melo no livro de homenagem: “O que diria o Medeiros Ferreira?”…

Carlos Almeida